
Picasso, Les Amoureux, 1923
Toda a manhã
fui a flor
impaciente
por abrir.
Toda a manhã
fui ardor
do sol
no teu telhado.
Toda a manhã
fui ave
inquieta
no teu jardim.
Toda a manhã
fui ave ou sol ou flor
secretamente
ao pé de ti.
Eugénio de Andrade

Almada Negreiros, auto-retrato com grupo, 1925
Já alguém sentiu a loucura
vestir de repente o nosso corpo?
Já.
E tomar a forma dos objectos?
Sim.
E acender relâmpagos no pensamento?
Também.
E às vezes parecer ser o fim?
Exactamente.
Como o cavalo do soneto de Ângelo de Lima?
Tal e qual.
E depois mostrar-nos o que há-de vir
muito melhor do que está?
E dar-nos a cheirar uma cor
que nos faz seguir viagem
sem paragem
nem resignação?
E sentirmo-nos empurrados pelos rins
na aula de descer abismos
e fazer dos abismos descidas de recreio
e covas de encher novidade?
E de uns fazer gigantes
e de outros alienados?
E fazer frente ao impossível
atrevidamente
e ganhar-Ihe, e ganhar-Ihe
a ponto do impossível ficar possível?
E quando tudo parece perfeito
poder-se ir ainda mais além?
E isto de desencantar vidas
aos que julgam que a vida é só uma?
E isto de haver sempre ainda mais uma maneira pra tudo?
Tu só, loucura, és capaz de transformar
o mundo tantas vezes quantas sejam as necessárias para olhos individuais
Só tu és capaz de fazer que tenham razão
tantas razões que hão-de viver juntas.
Tudo, excepto tu, é rotina peganhenta.
Só tu tens asas para dar
a quem tas vier buscar.
José de Almada Negreiros, Obras Completas
Que instância determina ser ou não ser razão
se é uma ficção o espírito? Nada tem a marca do eterno
e no entanto Gioconda sorri
os girassóis de Van Gogh germinam com uma violência solar
Astreia é ainda a pureza de um rosto entre duas sombras
E Orfeu toca a sua lira na ausência de Eurídice perdida
Nada é eterno mas o efémero pode ser o instante glorioso
a salvação da invenção porque tudo é invenção
contra o jugo do destino. Assim a obra nasce
para consagrar o que ainda está inacabado
mas que vai além da sombra espessa
que há na matéria do claro dia
António Ramos Rosa, Deambulações Oblíquas
Há palavras como mulheres nuas violentamente sumptuosas
Escrevê-las ou lê-las é como tocar os flancos de uma indolente lua
Às vezes têm um rosto de águia e de andorinha
e redondos seios de melodiosa sereia
Como eu amo o seu corpo as suas maravilhosas minúcias
e a sua larga ondulação unânime!
As palavras e o corpo não se separam como a luz da luz não se distingue
e se chamo ao púbis de uma mulher uma crespa concha de cabelos
é a palavra mesma que brilha e coincidindo apaga e revela a própria coisa
Por isso já não sei se estou a falar de uma palavra ou de uma mulher
ou se não estou a esculpir uma flexível estátua
de longas pernas robustas mas voluptuosamente delicadas
Esta clara oscilação é o movimento mesmo da matéria inaugural
da palavra que cria a transparência e amanhece na noite
com frágeis ou duros diademas das suas sílabas solares
António Ramos Rosa, Primeira Vez
Dependente de computador caprichoso, a todos os que não tenho podido visitar, um especial abraço.
Todos os dias as suas águas pequenas afloram os meus olhos. E eles, que morriam de inanidade, ganham então súbitos brilhos, abrindo respiradouros para a vida. A pureza, quando não é um olhar infantil, é uma aprendizagem entre venenos subtis. Raramente se alcança, e quando isso acontece já os nossos olhos estão secos - como poderá tão melindrosa flor abrir no deserto? Por isso estas águas, por mais exíguas, me são tão preciosas.
Eugénio de Andrade, Vertentes do Olhar
Trago no sangue o mistério
daquele resto de estrada
que não andei...
E era talvez ali
que eu ia ser feliz:
ali
que viriam as Fadas pra contar-me
os contos lindos das Princesas
e de Palácios
e de Florestas
que ficaram por contar;
ali que havia de abrir-se
o tal jardim
com flores que nunca morrem
ou, se morrem, há-de ser
na pujança da frescura
por medo de envelhecer...
Mas não passei além da curva...
O meu alento
já dobrou o joelho desistiu.
E eu sei tão bem que há Glória que me chama
e que tudo que digo aqui, ou faço,
é só arremedar, adivinhar,
o que, pra lá da curva que não passo,
havia de fazer ou de dizer!
E eu sei tão bem
que sem tomar nas mãos a Glória apetecida
me não contento!...
- Por que é que tu és só pressentimento,
minha vida?
Sebastião da Gama, Serra-Mãe
Se uma pausa não é fim
e silêncio não é ausência,
se um ramo partido não mata uma árvore,
um amor que é perdido, será acabado?
um ouvido que escuta
uma alma que espera...
-uma onda desfeita
É ou já não era?
Nuvem solitária,
silenciosa e breve,
nuvem transparente,
desenho etéreo de anjo distraído...
nuvem,
esquecida em céu de esperança,
forma irreal de sonho interrompido..
nuvem,
luz e sombra,
forma e movimento,
fantasia breve de ânsia de infinito...
nuvem que foste
e já não és:
desejo formulado e incompreendido.
Ana Hatherly

Aos quatro anos e meio, fui encarregada pela mãe de tomar conta de Domingas e Luís, quando ela ia para as terras ajudar papá ou lavar roupa ao tanque público. Deixava-me sempre o aviso, repetido vezes sem conta, de que não devia abrir a porta a ninguém. Um dia, abri-a à minha prima Manuela: começava a encher-me da saudade de brincar, tentada pelas bonecas de retalhos, pelos tachinhos de alumínio e pelos berços de verga daquela prima. Havia, nesse mundo em miniatura, uma outra graça, sem comparação possível com os tachos, as tigelas, a caixa da costura e os próprios filhos da mamã! Sentei Luís e Domingas no capacho, ao meio da casa, e pus-me a brincar com ela às mães fingidas, às mulheres fingidamente casadas. Brincávamos, veja a inocência!, às mulheres que tinham os maridos ausentes, às mães das bonecas de trapos, às tias ou irmãs mais velhas dos meus pequenos. Esqueci-me de tudo. Se o tempo desse dia passou depressa de mais, ou se foi a mãe que decidiu regressar mais cedo - não sei, nem o posso seguramente garantir. O certo é que a mamã, vendo tudo num esparrame pela casa fora, e vendo Luís todo borrado e com a boca suja de comer terra, e Domingas urinada e cheia de ranho, tudo num autêntico leilão, pegou logo na cana-da-índia de fazer as camas e levou o resto da tarde a sovar-me. De vez em quando, dava-lhe um súbito acesso de fúria: vinha lá de dentro e voltava a bater-me. Lembro-me dela a rilhar o dente, a dar-me beliscões nos braços e a ficar com as mãos cheias dos meus cabelos. Fazia-me aquilo impressão: estava muito tranquila lá dentro, parecia mesmo apaziguada, mas vinha de repente, esbofeteava-me, cega de ódio, e punha-me de novo a chorar.
A paixão desse dia foi encher-me de desgosto e conhecer uma grande vontade de ir ter com a morte, onde quer que ela estivesse. Se mais não chorei foi porque se aproximava a hora do pai. Vinha ao cair da noite, do trabalho das terras, com as vacas que nos entravam porta dentro, e perdia logo a paciência:
- Tal excomungada! Berrona do inferno: se te ponho as mãos em cima, deixo-te negra de pancadaria.
Como vê, nem ao menos se podia chorar. Não que me doessem por aí além os ensaios que mamã me dava. Doía-me era o espírito, a proibição de ser eu e o facto de não ter direito à minha idade: dar um pouco de colo a uma pobre boneca de retalhos, ter a graça ou a ilusão de ser livre, inocente e amada por esse tempo e pela aurora que se ia desenhando em círculo e à volta do mundo.
João de Melo, Gente Feliz com Lágrimas
Despe-te de verdades
das grandes primeiro que das pequenas
das tuas antes que de quaisquer outras
abre uma cova e enterra-as
a teu lado
primeiro as que te impuseram eras ainda imbele
e não possuías mácula senão a de um nome estranho
depois as que crescendo penosamente vestiste
a verdade do pão a verdade das lágrimas
pois não és flor nem luto nem acalanto nem estrela
depois as que ganhaste com o teu sémen
onde a manhã ergue um espelho vazio
e uma criança chora entre nuvens e abismos
depois as que hão-de pôr em cima do teu retrato
quando lhes forneceres a grande recordação
que todos esperam tanto porque a esperam de ti
Nada depois, só tu e o teu silêncio
e veias de coral rasgando-nos os pulsos
Então, meu senhor, poderemos passar
pela planície nua
o teu corpo com nuvens pelos ombros
as minhas mãos cheias de barbas brancas
Aí não haverá demora nem abrigo nem chegada
mas um quadrado de fogo sobre as nossas cabeças
e uma estrada de pedra até ao fim das luzes
e um silêncio de morte à nossa passagem.
Mário Cesariny, Manual de Prestidigitação
Oh! como se me alonga, de ano em ano,
a peregrinação cansada minha!
Como se encurta, e como ao fim caminha
este meu breve e vão discurso humano!
Vai-se gastando a idade e cresce o dano;
perde-se-me um remédio, que inda tinha;
se por experiência se adivinha,
qualquer grande esperança é grande engano.
Corro após este bem que não se alcança;
no meio do caminho me falece,
mil vezes caio, e perco a confiança.
Quando ele foge, eu tardo; e, na tardança,
se os olhos ergo a ver se inda parece,
da vista se me perde e da esperança.
Luís de Camões, Lírica Completa II
Aos ventos espalhei a cinza dos meus gestos.
Num desprezo de mim, fiz-me poeta,
traí os meus sonhos, enchendo vãos papéis
de traços sem sentido e talvez falsos.
Fui poeta como alguns se suicidam,
como outros partem sem destino certo.
Sonhei-me longe de tudo o que possuo
- longe de mim, longe de quem?-
afastado, sem contas a prestar...
Foi longo o meu engano. Agora vejo
que nunca de mim eu me afastei...
Adolfo Casais Monteiro, Confusão

O mundo inteiro está sozinho. Cada pessoa vive isolada no meio das multidões. As multidões são formadas por indivíduos, por numerosíssimos indivíduos separados uns dos outros.
As palavras caem perdidas no chão.
Sozinhos todos. Ninguém se entende. A humanidade inteira está reduzida à solidão de cada um dos seus indivíduos.
O mundo inteiro está dividido em tantos mundozinhos individuais, pequeníssimos microscópicos, quantos são os seus habitantes.
Mas aquele mundo da colaboração de todos, o único real afinal de contas, esse já não existe. Veio cada qual roubar-lhe o seu pedacito e o mundo ficou feito em migalhas, reduzido a grãos de areia, pó, nada!
Vós, indivíduos das cidades, e dos campos, vós indivíduos de todas as partes e que fazeis parte de todas as multidões, respondei todos um por um:
Com quem comunicas tu?
Não te perguntamos com quem tratas todos os dias, nem com quem falas, nem com quem vives, nem com quem dormes. Perguntamos-te unicamente: com quem te entendes?
Com ninguém!
Estás tão sozinho no meio de toda a gente ou ainda mais do que se não houvesse no mundo mais ninguém do que tu. [...]
S.O.S. perdidos, desencontrados, sozinhos! S.O.S. estamos todos desencontrados, estamos todos sozinhos, perdidos todos! S.O.S. sozinhos! S.O.S. desencontrados! S.O.S. perdidos! S.O.S.! sós! S.O.S.
S.O.S é o sinal internacional de telegrafia a pedir socorro.
Está formado pelas três letras iniciais da frase inglesa: «Save Our Souls», que quer dizer em português: «Salvai Nossas Almas».
Estas três letras S.O.S. são as mesmas com que se escreve em português o plural do indivíduo isolado: Sós.
Almada Negreiros, Obras Completas
Tenho segredo de
ti
meu amor de meu invento
convento onde te
fecho
com o meu corpo lá dentro
Tenho segredo de
ti
onde me prendo e me deito
e onde te roubo
as mãos
para as pôr sobre o meu peito
Maria Teresa Horta, Minha senhora de mim
esta esquisita prova me tentou
de tecer um rumor em muros de água
ossos de terra calcinada
o jugo
culpado me castigo com engenho
e da voz desenhada o artifício
restos de pele antiga
no laço da armadilha
em silêncio me muro e me demoro
no cálculo de rotas inexactas
um duro arbítrio quer que me desprenda
dos cinco ou mais sentidos
vou ser livre na terra desnudada
vou dizer o que sei como quem mente.
António Franco Alexandre, A Pequena Face

Olho os livros - e de súbito os livros multiplicam-se desde o chão até ao tecto. Paredes imensas, corredores infindáveis compactos de livros, e as caves, e as escadarias interiores, depósitos de in-fólios no sótão, a cerimónia findou, estou eu só na Biblioteca Geral. Fecharam os portões, ninguém, todo o grande edifício deserto. Passo pelos longos corredores, de cima a baixo os livros nos seus túmulos. São milénios de balbúrdia, tagarelice infindável, [...] interminável algazarra através das eras - estão imóveis nos seus túmulos irrisórios. Passo ao longo dos corredores, ecoam pelo tecto os meus passos claros no mosaico - silêncio. É a hora grave do fim [...]
Vergílio Ferreira, Para Sempre
Tudo imaterial na praia rasa
Cheia de sol, ao fim da tarde,
Proa ao vento quebrada
A vaga entre rochedos, se ilumina.
É tudo imaterial, tudo neblina
Ténue que aos poucos arde,
Ao fim da tarde se desfaz, flutua,
E voo de ave deslisa
Ao longe linha pura.
Tudo imaterial na praia rasa.
Aqui ninguém me vê: amo a ternura.
Ruy Cinatti, O Livro do Nómada Meu Amigo
«Não me traga para cá limões verdes!», tinha dito a dona Rosa à proxeneta. «A freguesia não lhes pega. E o negócio não está para a gente sustentar bocas inúteis!» Mas a velha insistiu: Visse-a ao menos, uma coisinha em primeira mão.
A dona Rosa achou-a bonitinha, mas uma engouguida, um pão-sem-sal. Conversaram, ela apalpou-lhe a barriga, e a Dores encolheu-se, amedrontada. A patroa foi fechar a porta do «escritório», tornou a sentar-se, acendeu um cigarro, cruzou a perna, meditou, e no fim pronunciou-se, a balançar a chinela de cetim azul na ponta do pé:
- Despe-te lá, rapariga.
Dores tremeu, com o rosto a arder: nunca se tinha despido diante de ninguém, nem a si própria mostrara o corpo ao espelho. Pôs-se a choramingar. A Engrácia respingou:
- Ora não querem lá ver o raio da mulher! Quando andava de gorra com o pinanejo, tudo eram folias. Agora é que lhe vêm as vergonhas! Dispa-se, ande! – e deitou-lhe a mão à blusinha, que era a melhor. Dores tentou esquivar-se:
- Ele nunca me mandou tirar a roupa!
A dona Rosa tinha outra compreensão e outro tacto: mesmo fingido, o pudor é sempre um grande atractivo. Levantou-se para a animar:
- Então, filha, não tens que ter vergonha da gente. O que eu mais tenho visto é mulheres nuas! A única riqueza que a gente temos é o corpo que Deus nos deu. E o que é bonito é para se ver, pois. Então tu nunca tiveste ninguém que te admirasse, ou te adorasse? Tens muito que aprender. Vá, eu ajudo-te.
Quando chegaram à combinação e às calcinhas de pano, compridas, com renda de croché que ela mesmo fizera, Dores queria sumir-se pelo chão abaixo. Meteu-se na sombra dum canto. Ainda assim, foi quase à força. E quando finalmente o seu corpo surgiu, radioso de alvura na fraca luz da saleta, estátua de pudor e timidez, Vénus inconsciente da sua divindade, o rosto afogueado a esconder-se nos cabelos soltos, um braço em curva tentando encobrir os seios polidos, a mão esquerda a proteger a fonte da vergonha e da desgraça, um joelho sobreposto ao outro em pose que ela nunca vira, a dona Rosa não pôde disfarçar um sobressalto e ficou muda de admiração. Só passados instantes conseguiu dizer:
É uma escultura… Uma Salomé!
José Rodrigues Miguéis, O Milagre segundo Salomé
Não sei quem sou, que alma tenho.
Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo. Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe (se é esses outros).
Sinto crenças que não tenho. Enlevam-me ânsias que repudio. A minha perpétua atenção sobre mim perpetuamente me aponta traições de alma a um carácter que talvez eu não tenha, nem ela julga que eu tenho.
Sinto-me múltiplo. Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas.
Como o panteísta se sente árvore e até flor, eu sinto-me vários seres. Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente, como se o meu ser participasse de todos os homens, incompletamente de cada, por uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço.
*
Sendo nós portugueses, convém saber o que é que somos.
a) adaptabilidade, que no mental dá a instabilidade, e portanto a diversificação do indivíduo dentro de si mesmo. O bom português é várias pessoas.
b) a predominância da emoção sobre a paixão. Somos ternos e pouco intensos, ao contrário dos espanhóis – nossos absolutos contrários –, que são apaixonados e frios.
Nunca me sinto tão portuguesmente eu como quando me sinto diferente de mim – Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Fernando Pessoa, e quanto mais haja havidos ou por haver.
Fernando Pessoa

Homens que são como lugares mal situados
Homens que são como casas saqueadas
Como são como sítios fora dos mapas
Como pedras fora do chão
Como crianças órfãs
Homens sem fuso horário
Homens agitados sem bússola onde repousem
Homens que são como fronteiras invadidas
Que são como caminhos barricados
Homens que querem passar pelos atalhos sufocados
Homens sulfatados por todos os destinos
Desempregados das suas vidas
Homens que são como a negação das estratégias
Que são como os esconderijos dos contrabandistas
Homens encarcerados abrindo-se com facas
Homens que são como danos irreparáveis
Homens que são sobreviventes vivos
Homens que são como sítios desviados
Do lugar
Homens que são como projectos de casas
Em suas varandas inclinadas para o mundo
Homens nas varandas voltados para a velhice
Muito danificados pelas intempéries
Homens cheios de vasilhas esperando a chuva
Parados à espera
De um companheiro possível para o diálogo interior
Homens muito voltados para um modo de ver
Um olhar fixo como quem vem caminhando ao encontro
De si mesmo
Homens tão impreparados tão desprevenidos
Para se receber
Homens à chuva com as mãos nos olhos
Imaginando relâmpagos
Homens abrindo lume
Para enxaguar o rosto para fechar os olhos
Tão impreparados tão desprevenidos
Tão confusos à espera de um sistema solar
Onde seja possível uma sombra maior
Daniel Faria, Homens que São como Lugares Mal Situados
Imobilizar as coisas, as pessoas, os momentos, arrancar-lhes um a um todos os véus, depois olhá-los bem, longamente, saciar-se deles até os olhos ficarem doridos e as pálpebras descerem de cansadas. Olhá-los assim para ter coragem. Observar com atenção tudo aquilo que deixa, tudo, bem de frente, por uma vez, sem receio, e verificar que não tem pena de se ir embora. Não fugir, não se escapar pelas ruas transversais, não se esconder na primeira porta aberta. Não sonhar. Sobretudo não sonhar.
[...] de súbito, não sabe porquê, os sonhos tornam-se insuficientes. Agora há sempre uma larga margem de angústia branca, que se lhe enrola ao peito como uma serpente, que o aperta, que lhe corta a respiração e que faz doer. E já não só peito, é todo ele que é apertado, comprimido, por múltiplos, invisíveis anéis.
Maria Judite de Carvalho, «Tudo vai mudar», Paisagem sem Barcos
Mas que sei eu das folhas no outono
ao vento vorazmente arremessadas
quando eu passo pelas madrugadas
tal qual passaria qualquer dono?
Eu sei que é vão o vento e lento o sono
e acabam coisas mal principiadas
no ínvio precipício das geadas
que pressinto no meu fundo abandono
Nenhum súbito súbdito lamenta
a dor de assim passar que me atormenta
e me ergue no ar como outra folha
qualquer. Mas eu que sei destas manhãs?
As coisas vêm vão e são tão vãs
como este olhar que ignoro que me olha.
Ruy Belo, Todos os poemas
Não terás para me
dar
quotidiano contigo
abrigo
corpo despido
Nem terás para me
dar
a segurança do perigo
mais do que o gesto
ocupado
o afago
o desmentido
Não terás para me
dar
o espanto de estar contigo.
Maria Teresa Horta
Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na Deusa com olhos de diamante,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,
Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,
Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,
Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o Amor tem asas de ouro. Ámen.
Natália Correia, Sonetos Românticos
No sonho não há asperezas, nem contrariedades – o sonho é como um rio imenso que corre e transborda. Não se lhe opõem diques: não há força que lhe resista. A realidade é cheia de intransigências mesquinhas, de ásperos ângulos, de mínimos e resistentes pormenores.
[…]
Cada ser tem a sua atmosfera própria, cada criatura vive rodeada duma auréola de sonho. Todas as almas segregam sonho, como todas as flores exalam perfume. É uma irradiação.
[…]
Morre um sonho – outro nasce. Para o construir basta um simples nada – mas sem essa atmosfera é que ninguém pode viver. É muitas vezes feita de penas, de gritos – mas tão indispensável como o pão de cada dia. Há homens que arrastam mantos impalpáveis, esplêndidos – noutros o sonho reduz-se, apaga-se, mas existe sempre, até nas almas rudimentares. Constitui, apesar de não entrarmos com ele em linha de conta, quase toda a nossa vida. Há atmosferas dessas que se ligam – nasce a simpatia; outras que se repelem – vem o ódio. A verdadeira existência, a que mais nos custa a deixar, é essa que nos parece quimérica. É até, se me não engano, a única que existe. Às vezes morre, dilui-se: a alma já não exala sonho e o corpo continua a viver – mas em verdade vos digo que o homem a quem isto suceda não passa dum cadáver.
[…]
Além disso, o ser que se habitua a sonhar, precisa constantemente de sonho: é como uma fornalha acesa: não há carvão que lhe chegue: a mina, ao fim de tempo, passa inteira pelo metro quadrado duma fornalha…
Raul Brandão, A Farsa
Através da cela ouve tropel de cavalos e alarido de muito povo, a entrecortar um sussurro distante, confuso, de música e tiros e vozes... É a Feira. Gineto anima-se, crente de que os companheiros virão buscá-lo neste dia de festa, trazendo Rosete com eles. Encosta a face às grades, espera o regresso à vida livre.
Uma voz canta, mesmo por baixo da janela, uma canção que ele ouviu, certa tarde, no alto do mirante. E então grita:
- Gaitinhas! Tou aqui, Gaitinhas!
Mas a voz afasta-se. Gaitinhas-cantor vai com o Sagui correr os caminhos do mundo, à procura do pai. E quando o encontrar, virá então dar liberdade ao Gineto e mandar para a escola aquela malta dos telhais - moços que parecem homens e nunca foram meninos.
Soeiro Pereira Gomes, Esteiros
Entre tamanhas mudanças,
Que coisa terei segura?
Duvidosas esperanças
Tão certa desaventura.
Venham estes desenganos
Do meu longo engano, e vão,
Que já o tempo e os anos
Outros cuidam que me dão.
Já não sou para mudanças,
Mais quero uma dor segura.
Vá crê-las, vãs esperanças,
Quem não sabe o qu'aventura.
Bernardim Ribeiro
E fico neste estado catatónico,
telegráfico, estúpido, lacónico,
quando te vejo ou ouço a tua voz.
Bem queria que passasse este registo,
que, se é para ser isto sem ter isto,
melhor que te tomar é tomar pós
de frutos, contra enjoos, suculentos,
bons para a pele, na alma como unguentos
ou band-aids em chuva autocolante.
Mas em qualquer dos casos, o que resta
é: não te veja, ou veja (em curta festa):
a saudade: submersa e naufragante.
Não te posso ouvir mais, digo três vezes,
e com muito fervor e muitas preces,
como se esconjurasse Satanás.
Depois, uma palavra, um leve traço,
um minúsculo gesto abrindo o espaço
e, mesmo que não estejas, aqui estás.
E sentas-te a meu lado na cadeira.
Ninguém te vê: só eu. A curva inteira
do pescoço, dos ombros, ou da mão.
Toco-te levemente e o vizinho
na mesa ao lado, espreita-me, de mansinho,
pensando que perdi toda a razão.
E devo ter perdido, se o real
me parece uma coisa desigual,
um band-aid barato, a descolar.
E a única coisa mais parecida
com o ser realmente é uma vida
que não posso, nem devo, acarinhar.
E até essa palavra lembra ti,
e a fractura começa por aí,
numa sintaxe que não sei rimar:
Não te posso ver mais. Não, não e não!
(E sai-me o verso assim, como vulcão
limitado a explodir dentro do mar).
E agora, o quê? Pergunto-me, interrogo-me,
faço das linhas coração. E chovo-me:
miríade em band-aids, tão veloz:
é que fico na mesma catatónica,
telegráfica, estúpida, lacónica,
se torno em verso, e minha, a tua voz.
Ana Luísa Amaral (inédito)

Mãe! dói-me o peito. Bati com o peito contra a estátua que tem em cima o
verbo ganhar. Ainda não sei como foi. Eu ia tão contente! eu ia a pensar em ti e
no verbo ganhar. Estava tudo a ser tão fácil! Já estava a imaginar a tua alegria
quando eu voltasse a casa com o verbo saber e o verbo ganhar, um em cada
mão!
Dói-me muito o peito, Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Almada Negreiros, A Invenção do Dia Claro
Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
E eu acreditava!
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os teus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os teus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...
já não se passa absolutamente nada.
E, no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos nada que dar.
Dentro de ti
Não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.
Eugénio de Andrade, Os Amantes sem Dinheiro