fevereiro 29, 2004

Retrato em Movimento

Era uma vez um pintor que tinha um aquário e, dentro do aquário, um peixe encarnado. Vivia o peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor encarnada, quando a certa altura começou a tornar-se negro a partir – digamos – de dentro. Era um nó negro por detrás da cor vermelha e que, insidioso, se desenvolvia para fora, alastrando-se e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário, o pintor assistia surpreendido à chegada do novo peixe.
O problema do artista era este: obrigado a interromper o quadro que pintava e onde estava a aparecer o vermelho do seu peixe, não sabia o que fazer agora da cor preta que o peixe lhe ensinava. Assim, os elementos do problema constituíam-se na própria observação dos factos e punham-se por uma ordem, a saber: 1º - peixe, cor vermelha, pintor, em que a cor vermelha era o nexo estabelecido entre o peixe e o quadro, através do pintor; - 2º - peixe, cor preta, pintor em que a cor preta formava a insídia do real e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor.
Ao meditar acerca das razões por que o peixe mudara de cor precisamente na hora em que o pintor assentava na sua fidelidade, ele pensou que, lá de dentro do aquário, o peixe, realizando o seu número de prestidigitação, pretendia fazer notar que existia apenas uma lei que abrange tanto o mundo das coisas como o da imaginação. Essa lei seria a metamorfose. Compreendida a nova espécie de fidelidade, o artista pintou na sua tela um peixe amarelo.

Herberto Helder, Retrato em Movimento

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fevereiro 28, 2004

Encostei-me para trás na cadeira de convés e fechei os olhos,
E o meu destino apareceu-me na alma como um precipício.
A minha vida passada misturou-se-me com a futura,
E houve no meio um ruído do salão de fumo,
Onde, aos meus ouvidos, acabara a partida de xadrez.

Ah, balouçado
Na sensação das ondas,
Ah, embalado
Na ideia tão confortável de hoje ainda não ser amanhã,
De pelo menos neste momento não ter responsabilidades nenhumas,
De não ter personalidade propriamente, mas sentir-me ali,
Em cima da cadeira como um livro que a sueca ali deixasse.

Ah, afundado
Num torpor da imaginação, sem dúvida um pouco sono,
Irrequieto tão sossegadamente,
Tão análogo de repente à criança que fui outrora
Quando brincava na quinta e não sabia álgebra,
Nem as outras álgebras com x e y's de sentimento.

Ah, todo eu anseio
Por esse momento sem importância nenhuma
Na minha vida,
Ah, todo eu anseio por esse momento, como por outros análogos
Aqueles momentos em que não tive importância nenhuma,
Aqueles em que compreendi todo o vácuo da existência sem
inteligência para o compreender
E havia luar e mar e a solidão, ó Álvaro.

Fernando Pessoa, Poemas de Álvaro de Campos

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fevereiro 27, 2004

"Mas com zurrapa, não..."

«Rasgar um véu e espreitar. A importância do véu reside exactamente no facto de ser preciso rasgá-lo para ver melhor. Como as aparências. Passar ao lado de lá é dalgum modo transgredir fazer de contas que não existe um risco de giz, um limite a deter-nos. Compete à alma jogar, mais uma vez, o seu jogo. Mas com zurrapa, não, zurrapa quer dizer batota, e grosseira.»

Carlos de Oliveira, Pequenos burgueses, pág. 182, Publicações Dom Quixote

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"quer lá saber"

«É jogador até ao fundo da alma, e com a alma não brinca ele. Senta-se, mergulha na tensão do jogo, como se mergulhasse no mistério da missa, e tenta compreendê-lo. Aceita a divindade, quer dizer, o acaso, mas não deixa por isso de o interrogar ou corrigir, quando pode, e em geral sai-se bastante bem. Os outros pesam pouco, pesam apenas na medida em que hesitam, erram ou acertam, influenciando o jogo, influência aliás diminuta porque é fácil prever-lhes os erros, os acertos, as hesitações. Se descobre qualquer aldrabice, o que raramente acontece, deixa andar. O acaso, o essencial, também se faz desses acidentes. Uma vez que dê por eles, que não passe por parvo diante de si mesmo, quer lá saber.»

Carlos de Oliveira, Pequenos burgueses, pp.73-74, Publicações Dom Quixote

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fevereiro 26, 2004

Localizar
na frágil espessura
do tempo,
que a linguagem
pôs
em vibração,
o ponto morto
onde a velocidade
se fractura
e aí
determinar
com exactidão
o foco
do silêncio.

Carlos de Oliveira, Trabalho poético, Livraria Sá da Costa Editora


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fevereiro 25, 2004

"escrita"

«"Canta-se o que se perde", estava escrito no poema que relia. Mas não cantava. Limitava-se a escrever, como as avós tinham bordado, para encher as horas dos dias, se propor uma tarefa, uma finalidade que lhe apagasse a frustração e o vazio. Uma escrita, contida, do e no silêncio.»

Luísa Dacosta, O planeta desconhecido e romance da que fui antes de mim, pág. 135, Quimera

Publicado por MARIAMAR em 04:34 PM | Comentários (0) | TrackBack

"labirinto"

«A vida era um labirinto de escuridão, sem alvores de madrugada que lhe orientassem a cegueira. Habitava um vazio sem rostos, onde mesmo o seu já não tinha significado. […] O seu destino de mulher era um destino de silêncio e de ausência. Ah! Poder voltar atrás àquele tempo em que vivera descuidada e feliz, como se estivesse à espera de outros ainda mais felizes.»

Luísa Dacosta, O planeta desconhecido e romance da que fui antes de mim, pág. 91, Quimera

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fevereiro 24, 2004

Na tarde quente
o frio da tua voz.
Ausente.

Publicado por MARIAMAR em 06:44 PM | Comentários (0) | TrackBack

"talvez, talvez"

«[…] mas a literatura também se converteu em silêncio, tornou-se apenas imanente, as palavras ficam cercadas, bloqueadas, e encontra-se sempre um meio de demonstrar às pessoas que elas significam tudo, e que, portanto, não significam nada, a palavra escrita é uma palavra morta e por isso eu quero a palavra dita, rente ao corpo, inseparada do corpo, língua, boca, braço, mão, gesto, movimento do eu e do outro, do eu para os outros e de novo destes para mim, a palavra que está no princípio do eu e do mundo e da vida e que é talvez, talvez, o amor, […]»

Teolinda Gersão, O Silêncio, pág. 118, Publicações Dom Quixote

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"apenas silêncio"

« e o silêncio cresce e é fundo e é total, de tal modo que poucos notam que é apenas silêncio, porque há sempre ruídos sobrepostos, preenchendo-o, música de fundo, speakers, relatos, informações, publicidade, avisos, profusões de linguagens balbuciadas, com uma extensão talvez máxima, mas com uma comunicação sempre mínima, as pessoas circulam, eficientes, em circuitos cada vez mais fechados, interiorizaram a tal ponto o universo de não-palavras que as circunda que acabaram por emudecer por completo,»

Teolinda Gersão, O Silêncio, pág. 113, Publicações Dom Quixote

Publicado por MARIAMAR em 06:09 PM | Comentários (0) | TrackBack

No silêncio cinzento,
o tempo que não existiu.

Chama, labareda, fogo.
Brasa. Cinza.
Silêncio.

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fevereiro 23, 2004

«uma pequena orelha verde»


«É um mundo que começou a enlouquecer, disse de repente, sem preparação. Um mundo eficiente, de silêncio total, em que ninguém mais fala com ninguém. As pessoas estão sentadas, ombro contra ombro, à espera, mas o objectivo da espera é sempre falso, o autocarro, o comboio, o avião, porque todos os lugares são iguais e nada é diferente em parte alguma. E enquanto se espera o silêncio cresce, vai ficando sempre mais denso e mais pesado, e algumas pessoas começam a ficar inquietas, porque de repente percebem que estão bloqueadas, dentro de caixas de vidro, o universo é um conjunto gigantesco de sucessivas caixas de vidro, e elas apenas transitam, ou são transportadas, de umas para as outras, casas, escritórios, autocarros, hospitais, aeroportos, aviões, transatlânticos, é inútil percorrer milhões de quilómetros porque o mundo fica sempre cada vez mais longe, é como se flutuassem, imponderáveis, num espaço vazio, os seus pés não assentam mais sobre a terra, correm seis dias sobre escadas rolantes e tapetes rolantes e no sétimo dia ficam parados sobre uma alcatifa, e o mundo que não tocam mais vem até elas apenas em imagens, dentro da televisão-caixa-de-vidro. Então algumas pessoas são tomadas de pânico e começam a falar, porque acham necessário modificar este estado de coisas, mas descobrem que não é possível falar porque as pessoas do lado as olham com estranheza, a tal ponto se habituaram a viver dentro de caixas bem isoladas que qualquer som espontâneo as incomoda, transportam em volta da cabeça uma caixa de vidro mental que se fecha por si mesma à menor suspeita de desordem, e então alguém propõe que quem estiver disposto a escutar os outros ponha na lapela uma pequena orelha verde.»

Teolinda Gersão, O Silêncio, pp. 39-40, Publicações Dom Quixote

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«talvez nunca»

«A tensão entre ambos, desde o início. Porque eles eram dois mundos sem pontos de contacto. A consciência disso, desde o primeiro instante. As tardes em que ela vagueava ao longo do rio, solta, dispersa, confundida com as coisas, as árvores, o rio, os barcos, os movimentos da água, o ondular do vento, uma figura indefinida caminhando através da luz baça. E do outro lado da ponte a janela iluminada, a pequena casa para onde ele se mudara, dissera-lhe, e esperava por ela, detrás das janelas altas. Entrar na casa e tomar a forma da casa, reunir na bruma os pedaços do seu corpo e ser breve e mortal entre dois braços, partir correndo, subir até ao último andar, abrir a porta e entrar de repente em sua vida, levando atrás de si o rio, a noite, o vento, a água, a bruma, o obscuro milagre que no universo dele não existia - mas Afonso não punha nunca o seu próprio universo em causa, e não viria nunca ao seu encontro. Ele não aceitava risco algum. Porquê então o absurdo impulso de atravessar a ponte quando não haveria talvez nunca uma ponte possível,»

Teolinda Gersão, O Silêncio, pág. 34, Publicações Dom Quixote

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