agosto 15, 2004

Procuro-te


Kandinsky, Lyrical


Procuro a ternura súbita,
os olhos ou o sol por nascer
do tamanho do mundo,
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um pássaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.

Oh, a carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugidia voz da água entre o azul
do prado e de um corpo estendido.

Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.
Chamo por ti, e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:
o pão e a água,
a cama e a mesa,
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue
o meu canto e a manhã de maio.

Um pássaro e um navio são a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado na luz.
Eu sei que há diferenças,
mas não quando se ama,
não quando apertamos contra o peito
uma flor ávida de orvalho.

Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solidão,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.

Porém eu procuro-te.
Antes que a morte se aproxime, procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio, ao sol, à chuva,
de noite, de dia, triste, alegre - procuro-te.

Eugénio de Andrade, As Palavras Interditas


Publicado por MARIAMAR em agosto 15, 2004 04:42 PM
Comentários

a triste sina das nossas procuras serem feitas muitas vezes no vazio – bonitos versos – c.

Afixado por: peres feio em agosto 15, 2004 08:27 PM

Obrigada pela tua passagem lá no meu espaço, mesmo enquanto estás de férias. E mais ainda por este lindíssimo poema de Eugénio de Andrade que aqui nos deixas. Beijinhos

Afixado por: lique em agosto 15, 2004 09:01 PM

Aproveite bem essas preciosas férias! O querido Eugénio de Andrade é sempre muito bem-vindo. E no post anterior, a vista de Lisboa me dá muita vontade de voltar e ficar muito mais tempo em Portugal. Um beijo grande.

Afixado por: adelaide amorim em agosto 16, 2004 01:23 AM

Este poema tem uma força anímica enorme. Tem 'garra' expectante.
Gosto muito, Mariamar, com Kandinsky.
Bj.

Afixado por: LE. em agosto 16, 2004 02:12 PM

Passei por aqui e não vejo a imagem...poema cheio de força de EA.
Bjo

Afixado por: leonor em agosto 17, 2004 02:00 AM

Ah como eu queria alguém me procurando assim... Como eu queria!

Afixado por: Graças em agosto 17, 2004 03:06 AM

Muito lindo... inspirador!

Afixado por: aragana em agosto 17, 2004 02:18 PM

Gosto do Kandinski, mas agora não se vê. Fico com o Eugénio. Beijo meu, Mariamar :)

Afixado por: Yardbird em agosto 17, 2004 10:59 PM

ainda q não veja a figura, procurar é o q tenho feito. bjo, querida. cal

Afixado por: cal em agosto 18, 2004 01:48 AM

Vi no outro sul que as férias continuam. Já lá expressei o meu des-contentamento.
Eugénio de Andrade, que parece ser um dos seus poetas preferidos, aqui, num dos seus mais belos textos (não conheço toda a obra).
Descanse e, por favor, responda-me.
Queira aceitar mais um beijo. A.

Afixado por: António em agosto 18, 2004 05:08 PM

...muito boa escolha. Gostei.

Afixado por: blueshell em agosto 19, 2004 03:24 AM

Estou sentindo falta de por entrar aqui em todos os dias. Um abraço carinhoso.

Afixado por: Graças em agosto 22, 2004 03:53 PM

passando pra te dar um bjo neste domingo de sol.cal

Afixado por: cal em agosto 22, 2004 05:22 PM

E desse procurar-se faz-se a vida. Belo, amiga.
Beijo.

Afixado por: Márcia em agosto 23, 2004 02:38 AM

eugénio
é um patrimônio
de beleza e infinito

Afixado por: astier em agosto 25, 2004 04:48 PM

eugénio
é um patrimônio
de beleza e infinito

Afixado por: astier em agosto 25, 2004 04:48 PM