Jules-Elie Delaunay. Foyer de l'Opéra de Paris
Canto de Orfeu
Pendurou no salgueiro a cítara
caminhou diante dos seus passos
sendo depois punido pelos Anjos.
Caminhou sempre para o futuro
mesmo olhando para trás na memória
e por esse futuro foi punido
pois levaria consigo a imagem viva.
Não era Eurídice aquela que o seguia
mas a sua face figurada
pelos olhos de Orfeu ainda capazes
de criar o modelo e a imagem.
Depois da morte ela ainda vivia
pronta para o prender em espelhos dúplices
e ele que amava nela o corpo, a alma,
o suor, o aroma, a linha dos dedos,
levou-a para sempre escendida
ao Tempo do Espaço depois do futuro.
Foi punido por Anjos ciosos
da sua ciência da Origem,
enquanto outros Anjos doces coroavam
aquele Filho que também levara
na memória dos olhos a figura
da Mãe, que todos os filhos levam em si.
Um terrível canto de lamento humano
Depois soou: "Che farò senza Uridice?",
com o som das vogais mais dolorosas.
Mas o sábio Orfeu deixou a lira
somente ser tocada pelo vento
quando o canto perseguia a imagem.
Fiama Hasse Pais Brandão, Cantos do Canto
Orfeu
Deixem-me a pedra fresca à face quente,
Condão da noite, íntegra em seu corpúsculo,
E lá deite a cabeça de repente
Como a bolha do Sol cai no crepúsculo.
Asa de ave sem canto é aquele ramúsculo
Que me caiu na testa. - E tanta gente
Vê nossa alma coroada! Oh! triste músculo
O coração do poeta que o não sente!
Um cansaço de morte gela o ousado
Domador de palavras como feras.
Orfeu sem Orco, ínvio ladrão de lume,
Quando, afinal, doméstico e roubado
Foi ele na paz da pedra, - e a outras quimeras
Sua coroa de rosas se resume.
Vitorino Nemésio, O Verbo e a Morte
Toda a noite acompanhei a tua viagem, Orfeu,
de fogo em fogo,
de melodia em melodia,
até o centro da Construção das Trevas.
Ah! E com que volúpia te vi de novo estrangular
a tua Eurídice
calada para sempre,
morta para sempre
- melodia
que só oculta no silêncio
atravessa as pedras...
E agora, Orfeu,
raiz do avesso,
vejo-te regressar lentamente à superfície da Terra,
com as mãos desfeitas em flor de orvalho
no fogo consumido.
Amanhece.
O planeta é de vidro.
José Gomes Ferreira, Encruzilhadas
Soneto de Eurydice
Eurydice perdida que no cheiro
E nas vozes do mar procura Orpheu
Ausência que povoa terra e céu
E cobre de silêncio o mundo inteiro
Assim bebi manhãs de nevoeiro
E deixei de estar viva e de ser eu
Em procura de um rosto que era meu
O meu rosto secreto e verdadeiro
Porém nem nas marés nem na miragem
Eu te encontrei. Erguia-se somente
O rosto liso e puro da paisagem
E devagar tornei-me transparente
Como morta nascida à tua imagem
E no mundo perdida esterilmente.
Sophia de Mello Breyner Andresen, No Tempo Dividido
Ouvindo:

Tudo sobre Orfeu e eu não conhecia nada. Obrigada. Belas imagens:)
Afixado por: wind em julho 14, 2004 01:11 PMQuem o mandou olhar para trás?? ;)
Afixado por: Filipa Sousa em julho 14, 2004 04:04 PMBelo, Mariamar. A Fiama bem merecia estar aí no meio desses deuses das letras. Já reparaste que ela pouco aparece mencionado aqui pelos blogs? Bjs
Afixado por: yardbird em julho 14, 2004 06:12 PMQuerida Mariamar, hoje excedeste todas as minhas expectativas. Pintura, poesia magnífica e música!Agradeço-te este final de tarde. Um beijo.
Te maeste uolucres, Orpheu, te turba ferarum,
te rigides silices, tua carmina saepe secutae
fleuerunt siluae.
Ovídio, Met., XI, 44/46
[...] dos deuses vem todo o engenho
que dá as qualidades aos mortais
Eles nos criam artistas, fortes de braços ou elequentes.
Píndaro, 1ª Ode Pítica
Afixado por: Pedro em julho 14, 2004 06:54 PMUma edição muito boa para ler mais tarde, calmamente. A música e imagem a completar. Bjo.
PS: que pena não se ouvir uma das árias....
a poesia, excelente - a música...ia jurar já a ter ouvido! c.
Afixado por: peres feio em julho 15, 2004 12:31 AMRealmente o Orpheu não devia ter duvidado da Perséfone, mas já o Gilgamesh la tinha tentado ir e não conseguiu vencer a morte porque esta faz parte da vida tambem...
Afixado por: Ana em setembro 14, 2004 10:08 PM