
Olhar o rio que é de tempo e água
E recordar que o tempo é outro rio,
Saber que nos perdemos como o rio
E que os rostos passam como a água.
Sentir que a vigília é outro sono
Que sonha não sonhar e que a morte
Que teme a nossa carne é essa morte
De cada noite, que se chama sono.
Ver no dia ou até no ano um símbolo
Quer dos dias do homem quer dos anos,
Converter a perseguição dos anos
Numa música, um rumor e um símbolo,
Ver na morte o sono, no ocaso
Um triste ouro, assim é a poesia
Que é imortal e pobre. A poesia
Volta como a aurora e o ocaso
Às vezes certas tardes uma cara
Olha-nos do mais fundo dum espelho;
A arte deve ser como esse espelho
Que nos revela a nossa própria cara.
Contam que Ulisses, farto de prodígios
Chorou de amor ao divisar a Ítaca
Verde e humilde. A arte é essa Ítaca
De verde eternidade e não prodígios.
Também é como o rio interminável
Que passa e fica e é cristal dum mesmo
Heraclito inconstante, que é o mesmo
E é outro, como o rio interminável.
Jorge Luis Borges, in Poemas Escolhidos, Trad. Ruy Belo
Publicado por MARIAMAR em julho 5, 2004 08:26 AMBelo rio:)
Afixado por: wind em julho 5, 2004 11:30 AM
"si pudiera vivir nuevamante mi vida/ en la proxima trataría de comter más errore/ no intetaría ser tan prefecto, me relajaría más./ sería mas tonto de lo que he sido..."
Um espanto, esta edição, Mariamar :-)
Bj.
"Olhar o rio que é de tempo e água
E recordar que o tempo é outro rio,
Saber que nos perdemos como o rio
E que os rostos passam como a água."
que dizer mais?bjo.
É mesmo, que dizer? Os "sul" começam a deixar-me indeciso, amiga. Qual escolher? Beijo.
Afixado por: Pedro em julho 5, 2004 03:29 PMSe a poesia de Borges é o que se sabe, fiquei maravilhado com a foto, Maria. Um espanto :)
Afixado por: Yardbird em julho 5, 2004 04:16 PMlindo, lindo, lindo!!!
Só podia se Borges, não?
quanto há para ler – tão pouco conheço de Borges – que missão empenhada e bonita tu tens! – c.
Afixado por: peres feio em julho 6, 2004 09:45 PM