«[...]
Foi então que vi o homem. Imediatamente parei. Era um homem extraordinariamente belo, que devia ter trinta anos e em cujo rosto estavam inscritos a miséria, o abandono, a solidão. O seu fato, que tendo perdido a cor tinha ficado verde, deixava adivinhar um corpo comido pela fome. O cabelo era castanho-claro, apartado ao meio, ligeiramente comprido. A barba por cortar há muitos dias crescia em ponta. Estreitamente esculpida pela pobreza, a cara mostrava o belo desenho dos ossos. Mas mais belos do que tudo eram os olhos, os olhos claros, luminosos de solidão e de doçura. No próprio instante em que o vi, o homem levantou a cabeça para o céu.
Como contar o seu gesto?
Era um céu alto, sem resposta, cor de frio. O homem levantou a cabeça no gesto de alguém que, tendo ultrapassado um limite, já nada tem para dar e se volta para fora procurando uma resposta. A sua cara escorria sofrimento. A sua expressão era simultaneamente resignação, espanto e pergunta. Caminhava lentamente, muito lentamente, do lado de dentro do passeio, rente ao muro. Caminhava muito direito, como se todo o corpo estivesse erguido na pergunta. Com a cabeça levantada, olhava o céu. Mas o céu eram planícies e planícies de silêncio.
Tudo isto se passou num momento e, por isso, eu, que me lembro nitidamente do fato do homem, da sua cara, do seu olhar e dos seus gestos, não consigo rever com clareza o que se passou dentro de mim. Foi como se tivesse ficado vazia olhando o homem.
A multidão não parava de passar. Era o centro do centro da cidade. O homem estava sozinho, sozinho. Rios de gente passavam sem o ver.
Só eu tinha parado, mas inutilmente. O homem não me olhava. Quis fazer alguma coisa, mas não sabia o quê. Era como se a sua solidão estivesse para além de todos os meus gestos, como se ela o envolvesse e o separasse de mim e fosse tarde demais para qualquer palavra e já nada tivesse remédio. Era como se eu tivesse as mãos atadas. Assim às vezes nos sonhos queremos agir e não podemos. [...]»
Sophia de Mello Breyner Andresen, «O Homem» in Contos Exemplares
Pela sua obra e pela sua coragem, as maiores homenagens que se possam pretar à Sofia ficarão sempre muito aquém do que ela merecia. Um Xi
Afixado por: castro cola em julho 3, 2004 08:43 PMBom encontrar aqui a prosa poética de Sophia.
De absoluto acordo com comentário anterior.
Boa noite.
Este texto é pura e simplesmente magnífico.
Afixado por: wind em julho 3, 2004 10:11 PMNoite feliz, MariaMar. Obrigado pela prosa da Sophia
Afixado por: Yardbird em julho 3, 2004 11:40 PMuma mulher de excepção atenta ao homem do fato cinzento c.
Afixado por: peres feio em julho 4, 2004 02:22 AMBelíssimo. Tem Sophia, pra vc, lá nos meus, tb.
BeijAmiga.
Gostava de encontrar as palavras certas oara dizer o que sinto... Um grande abraço
Afixado por: Ardelua em julho 4, 2004 06:53 PMOlá, vim no seu blog e gostei muito, espero receber sua visita no meu! Até mais!!!
Afixado por: Pedro Ivo em julho 5, 2004 02:54 AM