junho 30, 2004

Cesário / Matisse/ Baudelaire

MERIDIONAL

CABELOS

Ó vagas de cabelo esparsas longamente,
Que sois o vasto espelho onde eu me vou mirar,
E tendes o cristal dum lago refulgente
E a rude escuridão dum largo e negro mar;

Cabelos torrenciais daquela que me enleva,
Deixai-me mergulhar as mãos e os braços nus
No báratro febril da vossa grande treva,
Que tem cintilações e meigos céus de luz.

Deixai-me navegar, morosamente, a remos,
Quando ele estiver brando e livre de tufões,
E, ao plácido luar, ó vagas, marulhemos
E enchamos de harmonia as amplas solidões.

Deixai-me naufragar no cimo dos cachopos
Ocultos nesse abismo ebânico e tão bom
Como um licor renano a fermentar nos copos,
Abismo que se espraia em rendas de Alençon!

E, ó mágica mulher, ó minha Inigualável,
Que tens o imenso bem de ter cabelos tais,
E os pisas desdenhosa, altiva, imperturbável,
Entre o rumor banal dos hinos triunfais;

Consente que eu aspire esse perfume raro,
Que exalas da cabeça erguida com fulgor,
Perfume que estonteia um milionário avaro
E faz morrer de febre um louco sonhador.

Eu sei que tu possuis balsâmicos desejos,
E vais na direção constante do querer,
Mas ouço, ao ver-te andar, melódicos harpejos,
Que fazem mansamente amar e elanguescer.

E a tua cabeleira, errante pelas costas,
Suponho que te serve, em noites de verão,
De flácido espaldar aonde te recostas
Se sentes o abandono e a morna prostração.

E ela há-de, ela há-de, um dia, em turbilhões insanos
Nos rolos envolver-me e armar-me do vigor
Que antigamente deu, nos circos dos Romanos,
Um óleo para ungir o corpo ao gladiador.

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.................................................................

Ó mantos de veludo esplêndido e sombrio,
Na vossa vastidão posso talvez morrer!
Mas vinde-me aquecer, que eu tenho muito frio
E quero asfixiar-me em ondas de prazer.


Cesário Verde, O Livro de Cesário Verde





La Chevelure

O toison, moutonnant jusque sur l'encolure!
O boucles! O parfum chargé de nonchaloir!
Extase! Pour peupler ce soir l'alcôve obscure
Des souvenirs dormant dans cette chevelure,
Je la veux agiter dans l'air comme un mouchoir!

La langoureuse Asie et la brûlante Afrique,
Tout un monde lointain, absent, presque défunt,
Vit dans tes profondeurs, forêt aromatique!
Comme d'autres esprits voguent sur la musique,
Le mien, ô mon amour! nage sur ton parfum.

J'irai là-bas où l'arbre et l'homme, pleins de sève,
Se pâment longuement sous l'ardeur des climats;
Fortes tresses, soyez la houle qui m'enlève!
Tu contiens, mer d'ébène, un éblouissant rêve
De voiles, de rameurs, de flammes et de mâts:

Un port retentissant où mon âme peut boire
A grands flots le parfum, le son et la couleur
Où les vaisseaux, glissant dans l'or et dans la moire
Ouvrent leurs vastes bras pour embrasser la gloire
D'un ciel pur où frémit l'éternelle chaleur.

Je plongerai ma tête amoureuse d'ivresse
Dans ce noir océan où l'autre est enfermé;
Et mon esprit subtil que le roulis caresse
Saura vous retrouver, ô féconde paresse,
Infinis bercements du loisir embaumé!

Cheveux bleus, pavillon de ténèbres tendues
Vous me rendez l'azur du ciel immense et rond;
Sur les bords duvetés de vos mèches tordues
Je m'enivre ardemment des senteurs confondues
De l'huile de coco, du musc et du goudron.

Longtemps! toujours! ma main dans ta crinière lourde
Sèmera le rubis, la perle et le saphir,
Afin qu'à mon désir tu ne sois jamais sourde!
N'es-tu pas l'oasis où je rêve, et la gourde
Où je hume à longs traits le vin du souvenir?


Charles Baudelaire, Les Fleurs du mal


Publicado por MARIAMAR em junho 30, 2004 09:28 PM
Comentários

Jesus mariamar:) Mas que belo post! Li e reli não sei quantas vezes. Que poemas mais lindos e que quadro de Matisse espectacular. A mulher, o azul, os cabelos. Sem mais palavras perante o belo:-)

Afixado por: wind em junho 30, 2004 09:55 PM

Jesus mariamar:) Mas que belo post! Li e reli não sei quantas vezes. Que poemas mais lindos e que quadro de Matisse espectacular. A mulher, o azul, os cabelos. Sem mais palavras perante o belo:-)

Afixado por: wind em junho 30, 2004 09:56 PM

Ops desculpa, não sei o que aconteceu...

Afixado por: wind em junho 30, 2004 09:57 PM

Gostei de ler Cesário e Baudelaire acompanhados por Matisse. Que discussões tive in illo tempore! Qual o poema mais belo? Hoje, como então, defendo Cesário. Para mim, a última quadra de Cesário diz-me infinitamente mais do que a última estrofe de Baudelaire. Tu que pensas? Desejo-te que passes o fim de semana o melhor possível Descansa! Um beijo. P.S.- finalmente entrei sem dificuldade no meu preferido "sul" - que belo está! Cuida-te, amiga!

Afixado por: Pedro em julho 1, 2004 01:31 PM

Tudo belíssimamente articulado, Mariamar :)

Afixado por: Yardbird em julho 1, 2004 02:19 PM

a beleza em tríptico c.

Afixado por: peres feio em julho 1, 2004 07:45 PM