
Um parafuso. Aí está o que tu és, o que tens de ser, o que deves querer ser. A Luísa rira da comparação infeliz. Um parafuso não pensa, não resolve nada. Pois não. Mas que seria duma máquina a que faltassem parafusos? O seu mal era precisamente pensar de mais, não ficar no seu lugar, querer ser mais que um parafuso. Parafusos e não meninas sentimentais, pensou com profundo desgosto de si mesmo. Parafusos. Apenas.
E pôs-se a andar dum lado para o outro, entre a porta e a janela, cinco passos para a frente, cinco passos para trás. Um bicho na jaula, às voltas. Que poderia fazer senão esperar? Pensava mais em Luísa do que devia. Bem vistas as coisas. pensava mais em si próprio do que devia.
Em Janeiro, às seis horas é noite fechada na cidade. Com aquele nevoeiro escurecia muito mais depressa. O pequeno quadrado negro, translúcido ainda, da janela, já mal se distinguia do negro opaco e sem limites do interior do quarto. Outro dia passara. Outros e outros passariam. Vazios. Imensos. Não acenderia o candeeiro. Não queria luz. Não queria nada. Era bom não dar a entender que estava em casa e talvez assim sentisse menos a ausência da Luísa, àquela hora sempre a ir e a vir, contando coisas, rindo, entre o quarto e a cozinha, a preparar o jantar. Mas no escuro tudo se avolumava. Tudo crescia à sua volta, o apertava, o oprimia. Estava cercado.
Era então preciso ter vivido cinquenta e três anos para chegar àquela miséria de pensar apenas em si mesmo? Para acabar afinal por ter medo? Porque aquilo era medo, chamava-se medo, era o medo que dominara e ajudara a dominar a vida inteira. Aos cinquenta e três anos, só porque a Luísa lhe faltava, iam dizer dele o que sempre dissera de outros, porque podia dizê-lo?
Solidão, pensou, extenuado. Nevoeiro, isolamento, solidão. Tinha-os visto entrar sem pedir licença, como se esperava. Assistira a tudo sem um gesto, como devia fazer. Ouvia ainda os passos no corredor, no patamar, na escada, cada vez mais longe. E então?
Serenar. Ver tudo a sangue-frio. Não inventar desculpas. Não mentir. Não fugir do espelho. Analisar o seu caso como se fosse outro qualquer. Assim fizera sempre. Assim teria de fazer. Sozinho no escuro, recuava meses, anos. Talvez ela tivesse razão. Claro que tinha razão. Parafuso não queria dizer nada. Um parafuso não pensa, não resolve nada. Mas faz falta. Faz falta! Aí é que estava tudo: fazia falta. Ele fazia falta. Era isso e só isso que tinha de pensar, que queria pensar: fazia falta...
Mário Dionísio, O Dia Cinzento e Outros Contos
Publicado por MARIAMAR em junho 24, 2004 08:54 PM"fazia falta...", pungente este texto de Mário Dionísio. Imagem: bela a tua interpretação de 'parafuso'. Um dos teus fractais, não é verdade? Sabes que graças ao meu sul preferido fui rever fractais, teoria do caos... Já estava lá tão para trás. Muito te agradeço, Mariamar-Adesse.
Afixado por: Pedro em junho 24, 2004 10:24 PMLindo, mas deixa um nó no estômago. E sim os parafusos também fazem falta...;) Bela imagem para o que está escrito:)
Afixado por: wind em junho 24, 2004 10:46 PMQue sejamos, portanto, parafusos e que sintamos quanto podemos fazer falta.
Afixado por: Graças em junho 25, 2004 12:48 AMEste texto deixa marcas!
Afixado por: Sara Xavier em junho 25, 2004 09:42 AMTemo que de quando em vez a rosca tenha moído.
Foi bom encontrar (reencontrar) Mário Dionísio.
Beijos, Maria.
Algo cansado, estou.
A comparação, não é de todo infeliz, aliás, gosto muito desse parafuso. Excelente, é ser embebido por ele :-)
Bjs, Mariamar.
Um parafuso? Comparação inesperada mas bem pertinente. Gostei muito desse texto.
Beijos, querida.