junho 04, 2004

Portugal

Ó Portugal, se fosses só três sílabas.
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
Ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!

Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há «papo-de-anjo» que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.
Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...

Alexandre O'Neill, Poesias Completas


, um especial abraço.

Publicado por MARIAMAR em junho 4, 2004 11:18 PM
Comentários

MARIAMAR, Portugal é tudo isso e muito mais...

Afixado por: wind em junho 5, 2004 02:45 AM

Exemplo acabado da ironia tantas vezes dolorosa de O'Neill. Um abraço.

Afixado por: Ardelua em junho 5, 2004 01:27 PM

há muito, muito tempo mesmo nãome emocionava tanto um poema "clássico", desses que começam por oh. obrigado por isso.

Afixado por: sérgio em junho 5, 2004 07:07 PM

..e uma lágrima teima em caír. Nunca te agradecerei esse gesto tão bonito, minha amiga.

Da fina ironia, à dor, passnado por uma portucalidade assumida,a poesia de O´Neill no seu melhor e ainda por cima com uma dedicatória a mim.
Maria, és alguém de quem muito gosto. E alguém que admiro.
Beijo-te com o respeito do amigo que está sempre presente e ao teu lado, ainda que uma distância nos separe. Sei que quando entro num dos teus espaços, me sinto pequeno. Agora já não mais intimidado pelos teus intimismos, que respeito.
Beijo-te de novo.

Afixado por: LetrasAoAcaso em junho 5, 2004 08:15 PM

Soberba a fotografia do post anterior! O'Neill, fantástico! Como está, Mariamar? Bem, desejo eu. Beijo

Afixado por: António em junho 6, 2004 06:32 PM

repito a pergunta que deixei no «norte», está bem? Gosto de O'Neill, mas teria preferido encontrar u novo post. Bem mesmo, Mariamar? Beijo

Afixado por: Pedro Roriz em junho 7, 2004 10:42 AM

Alexandre O´Neill! Vou agora mesmo procurar tudo o que for possível encontrar. Se não sou culta - e nem sei se um dia serei, ao menos posso buscar conhecimento te acompanhando, né? rs... O poema é tão belo que me fez querer muito mais!
Beijo

Afixado por: Loba em junho 7, 2004 08:17 PM