junho 07, 2004


O meu mundo tem estado à tua espera; mas

não há flores nas jarras, nem velas sobre a mesa,

nem retratos escondidos no fundo das gavetas. Sei

que um poema se escreveria entre nós dois; mas

não comprei o vinho, não mudei os lençóis,

não perfumei o decote do vestido.

Se ouço falar de ti, comove-me o teu nome

(mas nem pensar em suspirá-lo ao teu ouvido);

se me dizem que vens, o corpo é uma fogueira –

estalam-me brasas no peito, desvairadas, e respiro

com a violência de um incêndio; mas parto

antes de saber como seria. Não me perguntes

porque se mata o sol na lâmina dos dias

e o meu mundo continua à tua espera:

houve sempre coisas de esguelha nas paisagens

e amores imperfeitos – Deus tem as mãos grandes


Maria do Rosário Pedreira, O Canto do Vento nos Ciprestes

Publicado por MARIAMAR em junho 7, 2004 09:07 PM
Comentários

Perfeito:) A inevitável fuga...

Afixado por: wind em junho 7, 2004 11:54 PM

o martírio, segundo Rosário – os difíceis caminhos da vida, para muita gente .
Mariamar, que belo poema com a forte imagem a sublinhar! – fica bem - c.

Afixado por: peres feio em junho 8, 2004 07:52 AM

Gostei, não conhecia. Bjo.

Afixado por: leonor em junho 8, 2004 03:00 PM

O poema é lindo. Termina com dois versos sublimes, Mariamar.
Bj.

Afixado por: LE. em junho 8, 2004 03:19 PM