junho 02, 2004

Eu sei, não te conheço, mas existes ...

Eu sei, não te conheço mas existes.
Por isso os deuses não existem,
a solidão não existe
e apenas me dói a tua ausência
como uma fogueira
ou um grito.

Não me perguntes como mas ainda me lembro
quando no outono cresceram no teu peito
duas alegres laranjas que eu apertei nas minhas mãos
e perfumaram depois a minha boca.

Eu sei, não digas, deixa-me inventar-te.
Não é um sonho, juro, são apenas as minhas mãos
sobre a tua nudez
como uma sombra no deserto.
É apenas este rio que me percorre há muito e desagua em ti,
porque tu és o mar que acolhe os meus destroços.
É apenas uma tristeza inadiável, uma outra maneira de habitares
em todas as palavras do meu canto.

Tenho construído o teu nome com todas as coisas.
tenho feito amor de muitas maneiras,
docemente,
lentamente
desesperadamente
à tua procura, sempre à tua procura
até me dar conta que estás em mim,
que em mim devo procurar-te,
e tu apenas existes porque eu existo
e eu não estou só contigo
mas é contigo que eu quero ficar só
porque é a ti,
a ti que eu amo.


Joaquim Pessoa, Os Olhos de Isa

Publicado por MARIAMAR em junho 2, 2004 02:14 AM
Comentários

Lirismo em alta dose, a ponto de uma overdose. Delícia morrer assim.

Afixado por: Graças em junho 2, 2004 02:54 AM

Com este "morri" mesmo...

Afixado por: wind em junho 2, 2004 09:48 AM

Há muito que não relia Joaquim Pessoa foi bom encontrá-lo por aqui.

Afixado por: Sara Xavier em junho 2, 2004 04:16 PM

demolidor - belo - c.

Afixado por: peres feio em junho 2, 2004 10:36 PM

O poema é insufismavelmente bonito.
Não sei, até que ponto, esse "alguém" existe, e quantas almas se destroem neste caminho da vida, na demanda de algo, que só na imaginação existe.
Bjs, Mariamar.

Afixado por: LE. em junho 3, 2004 01:37 AM

Hi, just popped in here through a random link. Cool site, keep this good work up :-)

government grants

Afixado por: government grants em junho 29, 2004 10:47 PM