maio 21, 2004

"não ter direito à minha idade"

Aos quatro anos e meio, fui encarregada pela mãe de tomar conta de Domingas e Luís, quando ela ia para as terras ajudar papá ou lavar roupa ao tanque público. Deixava-me sempre o aviso, repetido vezes sem conta, de que não devia abrir a porta a ninguém. Um dia, abri-a à minha prima Manuela: começava a encher-me da saudade de brincar, tentada pelas bonecas de retalhos, pelos tachinhos de alumínio e pelos berços de verga daquela prima. Havia, nesse mundo em miniatura, uma outra graça, sem comparação possível com os tachos, as tigelas, a caixa da costura e os próprios filhos da mamã! Sentei Luís e Domingas no capacho, ao meio da casa, e pus-me a brincar com ela às mães fingidas, às mulheres fingidamente casadas. Brincávamos, veja a inocência!, às mulheres que tinham os maridos ausentes, às mães das bonecas de trapos, às tias ou irmãs mais velhas dos meus pequenos. Esqueci-me de tudo. Se o tempo desse dia passou depressa de mais, ou se foi a mãe que decidiu regressar mais cedo - não sei, nem o posso seguramente garantir. O certo é que a mamã, vendo tudo num esparrame pela casa fora, e vendo Luís todo borrado e com a boca suja de comer terra, e Domingas urinada e cheia de ranho, tudo num autêntico leilão, pegou logo na cana-da-índia de fazer as camas e levou o resto da tarde a sovar-me. De vez em quando, dava-lhe um súbito acesso de fúria: vinha lá de dentro e voltava a bater-me. Lembro-me dela a rilhar o dente, a dar-me beliscões nos braços e a ficar com as mãos cheias dos meus cabelos. Fazia-me aquilo impressão: estava muito tranquila lá dentro, parecia mesmo apaziguada, mas vinha de repente, esbofeteava-me, cega de ódio, e punha-me de novo a chorar.
A paixão desse dia foi encher-me de desgosto e conhecer uma grande vontade de ir ter com a morte, onde quer que ela estivesse. Se mais não chorei foi porque se aproximava a hora do pai. Vinha ao cair da noite, do trabalho das terras, com as vacas que nos entravam porta dentro, e perdia logo a paciência:
- Tal excomungada! Berrona do inferno: se te ponho as mãos em cima, deixo-te negra de pancadaria.
Como vê, nem ao menos se podia chorar. Não que me doessem por aí além os ensaios que mamã me dava. Doía-me era o espírito, a proibição de ser eu e o facto de não ter direito à minha idade: dar um pouco de colo a uma pobre boneca de retalhos, ter a graça ou a ilusão de ser livre, inocente e amada por esse tempo e pela aurora que se ia desenhando em círculo e à volta do mundo.

João de Melo, Gente Feliz com Lágrimas

Publicado por MARIAMAR em maio 21, 2004 07:50 PM
Comentários

Li este livro há uns anos. Não me lembrava que fosse tão comovente e real. Quantas crianças a não o ser e quantas mães tão infelizes como esta.
Uma bela escolha, a tua. Bjo.

Afixado por: leonor em maio 22, 2004 12:10 AM

Li este livro quando foi editado e gostei muito. É daqueles livros que não apetece parar. Aqui neste extracto "mostra" o que de facto muitas crianças infelizmente não são: crianças...

Afixado por: wind em maio 22, 2004 02:48 AM

triste, mas uma boa sugestão de leitura para este sábado também tristonho! que venha o sol e te premei pelo teu convite português acompanhado da tela de um querido italiano! c.

Afixado por: peres feio em maio 22, 2004 12:59 PM

passando pra te dar um bjo. cal

Afixado por: cal em maio 22, 2004 06:01 PM

Se vale a indicação, leia Infância, de Graciliano Ramos. Essa criança que não consegue ser totalmente feliz pelo medo que os adultos lhe trazem está lá também. A passagem em que o pai resolve ensinar-lhe a ler, já que ele não "desarnava", é inesquecível.

Afixado por: Graças em maio 23, 2004 12:12 AM

Um texto intemporal, de miséria e grandeza humana.
Belo, com Modigliani.
Bjs.

Afixado por: LE. em maio 23, 2004 01:46 AM

Fez-me voltar a alguns momentos bem pouco alegres da minha infância. Esse, quem vai roubar, sou eu, amiga. ;)
Um beijo grande.

Afixado por: Márcia em maio 23, 2004 06:17 PM

"Tudo é tão Pouco" para "Se ter direito à idade"...:)))

Afixado por: wind em maio 23, 2004 11:34 PM

que imensamente justa reclamação! é justamente a idade que não se pode deixar de dar direito de existir. embora todas as outras estejam sujeitas à poda.

Afixado por: sérgio em maio 24, 2004 12:40 AM

Lindo! posso dizer que tive uma infância feliz. Grata por me teres lembrado este pormenor.

Afixado por: Ardelua em maio 24, 2004 09:06 AM