Despe-te de verdades
das grandes primeiro que das pequenas
das tuas antes que de quaisquer outras
abre uma cova e enterra-as
a teu lado
primeiro as que te impuseram eras ainda imbele
e não possuías mácula senão a de um nome estranho
depois as que crescendo penosamente vestiste
a verdade do pão a verdade das lágrimas
pois não és flor nem luto nem acalanto nem estrela
depois as que ganhaste com o teu sémen
onde a manhã ergue um espelho vazio
e uma criança chora entre nuvens e abismos
depois as que hão-de pôr em cima do teu retrato
quando lhes forneceres a grande recordação
que todos esperam tanto porque a esperam de ti
Nada depois, só tu e o teu silêncio
e veias de coral rasgando-nos os pulsos
Então, meu senhor, poderemos passar
pela planície nua
o teu corpo com nuvens pelos ombros
as minhas mãos cheias de barbas brancas
Aí não haverá demora nem abrigo nem chegada
mas um quadrado de fogo sobre as nossas cabeças
e uma estrada de pedra até ao fim das luzes
e um silêncio de morte à nossa passagem.
Mário Cesariny, Manual de Prestidigitação
Publicado por MARIAMAR em maio 20, 2004 11:02 PMConfesso que não conhecia, mas gostei muito. Agradeço o que editas também aqui neste Sul que nos delicias:)))
Afixado por: wind em maio 20, 2004 11:52 PM"Lembra-te que és mortal..."
Espantoso, simplesmente espantoso, Mariamar.
Beijos.
faz-nos bem seguir as palavras, seguir as ideias – tens neste espaço feito mais pela divulgação da cultura, que secretaria de estado…c.
Afixado por: peres feio em maio 21, 2004 02:02 AM