«Não me traga para cá limões verdes!», tinha dito a dona Rosa à proxeneta. «A freguesia não lhes pega. E o negócio não está para a gente sustentar bocas inúteis!» Mas a velha insistiu: Visse-a ao menos, uma coisinha em primeira mão.
A dona Rosa achou-a bonitinha, mas uma engouguida, um pão-sem-sal. Conversaram, ela apalpou-lhe a barriga, e a Dores encolheu-se, amedrontada. A patroa foi fechar a porta do «escritório», tornou a sentar-se, acendeu um cigarro, cruzou a perna, meditou, e no fim pronunciou-se, a balançar a chinela de cetim azul na ponta do pé:
- Despe-te lá, rapariga.
Dores tremeu, com o rosto a arder: nunca se tinha despido diante de ninguém, nem a si própria mostrara o corpo ao espelho. Pôs-se a choramingar. A Engrácia respingou:
- Ora não querem lá ver o raio da mulher! Quando andava de gorra com o pinanejo, tudo eram folias. Agora é que lhe vêm as vergonhas! Dispa-se, ande! – e deitou-lhe a mão à blusinha, que era a melhor. Dores tentou esquivar-se:
- Ele nunca me mandou tirar a roupa!
A dona Rosa tinha outra compreensão e outro tacto: mesmo fingido, o pudor é sempre um grande atractivo. Levantou-se para a animar:
- Então, filha, não tens que ter vergonha da gente. O que eu mais tenho visto é mulheres nuas! A única riqueza que a gente temos é o corpo que Deus nos deu. E o que é bonito é para se ver, pois. Então tu nunca tiveste ninguém que te admirasse, ou te adorasse? Tens muito que aprender. Vá, eu ajudo-te.
Quando chegaram à combinação e às calcinhas de pano, compridas, com renda de croché que ela mesmo fizera, Dores queria sumir-se pelo chão abaixo. Meteu-se na sombra dum canto. Ainda assim, foi quase à força. E quando finalmente o seu corpo surgiu, radioso de alvura na fraca luz da saleta, estátua de pudor e timidez, Vénus inconsciente da sua divindade, o rosto afogueado a esconder-se nos cabelos soltos, um braço em curva tentando encobrir os seios polidos, a mão esquerda a proteger a fonte da vergonha e da desgraça, um joelho sobreposto ao outro em pose que ela nunca vira, a dona Rosa não pôde disfarçar um sobressalto e ficou muda de admiração. Só passados instantes conseguiu dizer:
É uma escultura… Uma Salomé!
José Rodrigues Miguéis, O Milagre segundo Salomé
Belo texto!
Aliás, onde vc consegue desobrir tanto texto bom?
Não conhecia. É espectacular o que aqui editaste:) Li com uma atenção enorme, palavra a palavra. às tantas parece que sentia o mesmo de quem se estava a despir...continua:-)
Afixado por: wind em maio 12, 2004 10:13 PMQuerida adesse/mariamar, José Rodrigues Miguéis! Que oportuno este excerto do Milagre Segundo Salomé! Relacionado com a estreia do filme, não acredito em coincidência! Grande abraço pelo 'nascimento' de Salomé e um beijo de boa noite. A.
Afixado por: António em maio 12, 2004 10:47 PMPeço desculpa pelo meu 1º comentário. Hoje estou a ler tudo ao contrário! Cansaço...Mantenho só: é lindo o que editaste:)
Afixado por: wind em maio 13, 2004 12:19 AM