Não sei quem sou, que alma tenho.
Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo. Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe (se é esses outros).
Sinto crenças que não tenho. Enlevam-me ânsias que repudio. A minha perpétua atenção sobre mim perpetuamente me aponta traições de alma a um carácter que talvez eu não tenha, nem ela julga que eu tenho.
Sinto-me múltiplo. Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas.
Como o panteísta se sente árvore e até flor, eu sinto-me vários seres. Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente, como se o meu ser participasse de todos os homens, incompletamente de cada, por uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço.
*
Sendo nós portugueses, convém saber o que é que somos.
a) adaptabilidade, que no mental dá a instabilidade, e portanto a diversificação do indivíduo dentro de si mesmo. O bom português é várias pessoas.
b) a predominância da emoção sobre a paixão. Somos ternos e pouco intensos, ao contrário dos espanhóis – nossos absolutos contrários –, que são apaixonados e frios.
Nunca me sinto tão portuguesmente eu como quando me sinto diferente de mim – Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Fernando Pessoa, e quanto mais haja havidos ou por haver.
Fernando Pessoa
Publicado por MARIAMAR em maio 11, 2004 05:13 PM:))) Espectacular. Adoro isto do Fernando Pessoa. a nãlise dos portugueses e dele próprio. Lindooooo:))))
Afixado por: wind em maio 11, 2004 06:11 PMerrata: a análise
Afixado por: wind em maio 11, 2004 06:11 PMGostei muito de ler, Mariamar.
Bjs.
Que poeta português mais me encanta? Fernando Pessoa, ora pois! Feliz escolha. Excelente leitura você me proporcionou. E somos contrários, somos diversos, afirmamos e negamos o que há em nós... Será que há um que de "portugais" (Cetano apresenta essa palavra em sua música Língua)em mim. Dizia a minha avó Rosalina quem sim.
Afixado por: Graças em maio 11, 2004 11:51 PM