Imobilizar as coisas, as pessoas, os momentos, arrancar-lhes um a um todos os véus, depois olhá-los bem, longamente, saciar-se deles até os olhos ficarem doridos e as pálpebras descerem de cansadas. Olhá-los assim para ter coragem. Observar com atenção tudo aquilo que deixa, tudo, bem de frente, por uma vez, sem receio, e verificar que não tem pena de se ir embora. Não fugir, não se escapar pelas ruas transversais, não se esconder na primeira porta aberta. Não sonhar. Sobretudo não sonhar.
[...] de súbito, não sabe porquê, os sonhos tornam-se insuficientes. Agora há sempre uma larga margem de angústia branca, que se lhe enrola ao peito como uma serpente, que o aperta, que lhe corta a respiração e que faz doer. E já não só peito, é todo ele que é apertado, comprimido, por múltiplos, invisíveis anéis.
Maria Judite de Carvalho, «Tudo vai mudar», Paisagem sem Barcos
Publicado por MARIAMAR em maio 9, 2004 03:55 PMNão conhecia. Li e fiquei angustiada. Grande verdade que aqui está descrita. Quando os sonhos se vão o que fica?:((( O que vale é que são fases que passam e depois tornamos a sonhar...
Afixado por: wind em maio 9, 2004 08:20 PMde passagem, para sentir o aperto dos anéis.
belos versos.
Bonito bonito....
Afixado por: Eye of the tiger em maio 9, 2004 10:04 PMDifícil escolher qual texto eu premiaria para comentar. Gostei de todos, comento no último. A angústia é mesmo uma dor no peito... beijos.
Afixado por: Deméter em maio 9, 2004 11:52 PMA vida da Judite deve ter sido muito difícil. Como esta mulher aguentou a vida inteira a ser enganada e a ser uma espécie de sombra do marido.
Há sempre tanta tristeza naquilo que escreve... Ai Urbano,Urbano!!!
Que angústia terrível...sobretudo o não sonhar...adorei ler...mesmo muito :) um beijinho terno
Afixado por: Vera em maio 10, 2004 01:00 AM