maio 03, 2004

ALEXANDRÍNICOS DILEMAS

E fico neste estado catatónico,
telegráfico, estúpido, lacónico,
quando te vejo ou ouço a tua voz.
Bem queria que passasse este registo,
que, se é para ser isto sem ter isto,
melhor que te tomar é tomar pós

de frutos, contra enjoos, suculentos,
bons para a pele, na alma como unguentos
ou band-aids em chuva autocolante.
Mas em qualquer dos casos, o que resta
é: não te veja, ou veja (em curta festa):
a saudade: submersa e naufragante.

Não te posso ouvir mais, digo três vezes,
e com muito fervor e muitas preces,
como se esconjurasse Satanás.
Depois, uma palavra, um leve traço,
um minúsculo gesto abrindo o espaço
e, mesmo que não estejas, aqui estás.

E sentas-te a meu lado na cadeira.
Ninguém te vê: só eu. A curva inteira
do pescoço, dos ombros, ou da mão.
Toco-te levemente e o vizinho
na mesa ao lado, espreita-me, de mansinho,
pensando que perdi toda a razão.

E devo ter perdido, se o real
me parece uma coisa desigual,
um band-aid barato, a descolar.
E a única coisa mais parecida
com o ser realmente é uma vida
que não posso, nem devo, acarinhar.

E até essa palavra lembra ti,
e a fractura começa por aí,
numa sintaxe que não sei rimar:
Não te posso ver mais. Não, não e não!
(E sai-me o verso assim, como vulcão
limitado a explodir dentro do mar).

E agora, o quê? Pergunto-me, interrogo-me,
faço das linhas coração. E chovo-me:
miríade em band-aids, tão veloz:
é que fico na mesma catatónica,
telegráfica, estúpida, lacónica,
se torno em verso, e minha, a tua voz.

Ana Luísa Amaral (inédito)

Publicado por MARIAMAR em maio 3, 2004 12:23 AM
Comentários

Ana Luísa Amaral num registo que me era desconhecido. Muito grato por mo ter dado a conhecer. Um abraço. P.

Afixado por: P.Roriz em maio 3, 2004 09:27 AM

No dia em que descobri este blog não podia pedir mais. Gosto muito de Ana Luísa Amaral. Voltarei para apreciar os anteriores posts e os futuros, naturalmente!

Afixado por: Zara Pontes em maio 3, 2004 09:39 AM

É simplesmente lindo...:)confesso que não conhecia.

Afixado por: wind em maio 3, 2004 11:02 AM

Agora estás apaixonada nos dois lados, passa no meu consultório faz favor que eu trato-te disso.

Afixado por: Cetus em maio 3, 2004 01:50 PM

depois de ter apreciado a beleza do 'sulanorte' tive a íntima convicção de que encontraria aqui a totalidade do poema. Quão agradado fiquei por não ter errado. Gostei muito deste poema de Ana Luísa Amaral. Obrigado por o ter divulgado, adesse/mariamar. Noite feliz. Até amanhã,já estou pronto para uma nova não surpresa... :_))

Afixado por: António em maio 3, 2004 06:59 PM

É curiosa a comparação que se possa efectuar entre duas edições, onde existe um poema, e, parte dele, em comum, com imagem. Tão iguais e tão diferentes também, no aparente significado.
Gostei muito desta abordagem. Assemelha-se a um prisma.
Um abraço.

Afixado por: LE. em maio 3, 2004 10:40 PM

Maravilhosa, não é? Amei esse poema.
Beijo por ele.

Afixado por: Márcia em maio 4, 2004 04:16 PM