Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos a morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício
Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição
Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita
Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar
Mário Cesariny, Pena Capital
Publicado por MARIAMAR em abril 29, 2004 07:50 PMJesus! Li a uma velocidade alucinante e senti-me pequenina. Este doeu cá dentro...Confesso que não conhecia, mas fez-me pensar. Até me arrepiei...
Afixado por: wind em abril 29, 2004 09:03 PMAqui também estive. E li. Até amanhã!
Afixado por: Graças em abril 29, 2004 11:24 PMentre nos e as palavras, uma peninsula talvez iberica - besos
Afixado por: peres feio em abril 30, 2004 12:18 AMPalavras que atravessaram o espaço e o tempo. Têm uma aura que parece acompanhar a Humanidade.
Um abraço.
Agradeço-lhe mais esta releitura deste excepcional poema de Cesariny, que descobri graças a outro excepcional poeta - Manuel Hermínio Martinho. Bem haja, minha amiga. Abraço.
Afixado por: António em abril 30, 2004 09:12 AMCesariny sempre!
Afixado por: Sara Xavier em abril 30, 2004 10:13 AMEste e um daqueles poemas intemporais e precisos em que cada palavra, cada verso e como uma nota precisa ou um exacto acorde... Existe um CD dedicado aos grandes poetas portugueses do sec XX em que M. Cesariny declama este belissimo "you are welcome to elsinor"... Sublime ouvir a sua voz arrastada e gasta dizer os sons exactos de cada verso.. Procurem
Afixado por: Fausto do Rosario em maio 13, 2004 09:15 PM