Dizia Teixeira de Pascoaes em carta a Raul Brandão: "A amizade verdadeira é o maior argumento a favor da existência de Deus". E talvez seja assim mesmo.
É no riso dos amigos que vivemos a infância. O riso dos segredos cúmplices, das pequenas infracções que ninguém descobriu, da curiosidade partilhada em alvoroço, do sopro sereno do vento nos cabelos.
É nos olhos dos amigos que recordamos a infância. Corridos os anos, a esperança já um pouco gasta, esmorecida a alegria, é nos olhos deles que encontramos por momentos a luz das manhãs de outrora, o entendimento que nasce sem palavras, a emoção do riso solto sem a censura das conveniências ou da idade, a magia das tardes em que se adivinhava a Primavera. É nos olhos dos amigos que, por segundos, repousamos na sensação de que nos afastáramos pouco antes quando na verdade os não víamos há meses, há anos, esgaçados entre o trabalho e o desencanto, o trânsito e o cansaço, a vida adiada e a morte pressentida.
É no rosto dos amigos que lemos o nosso envelhecer. As rugas, os cabelos brancos, o brilho embaciado do olhar, o ricto cada dia menos doce que nos vinca os lábios, os gestos lentos de amargura foram crescendo connosco sem que verdadeiramente déssemos por isso. É no rosto dos nossos amigos que sentimos a que ponto o tempo nos devastou, como se de repente e pela vez primeira nos olhássemos ao espelho. E é então que nos encontramos inermes, perdidos, desencantadamente lúcidos ante a vida que se esgotou sem que quase nunca saibamos porquê nem para quê. Mas também é no rosto envelhecido dos amigos que descobrimos a centelha de ternura que guardámos ainda quando os dias, de loucas aventuras sonhadas nas tardes chuvosas, se transformaram na própria chuva, miudinha e cinzenta, desinteressante e fria de renúncias.
Sentimento controverso, a amizade. Porque os amigos nos enchem a vida com a sua presença, mas também nos fazem provar o gosto acre da tristeza ou da saudade quando deles nos separamos, e nos deixam um insuportável vazio quando os perdemos. [...]
[...] um texto que todos conhecem mas que, julgo, lembra como nenhum que a amizade é memória e futuro, lágrimas e riso, serenidade e sobressalto, presença e saudade. É um texto d'O Principezinho, de A. de Saint-Exupéry. Diz o principezinho:
- Ando à procura de amigos. O que é que «estar preso» quer dizer?
- É uma coisa de que toda a gente se esqueceu – disse a raposa. – Quer dizer que se está ligado a alguém, que se criaram laços com alguém.
- Laços?
- Sim, laços – disse a raposa. – Ora vê: por enquanto, para mim, tu não és senão um rapazinho perfeitamente igual a outros cem mil rapazinhos. E eu não preciso de ti. E tu também não precisas de mim. Por enquanto, para ti, eu não sou senão uma raposa igual a outras cem mil raposas. Mas, se tu me prenderes a ti, passamos a precisar um do outro. Passas a ser único no mundo para mim. E, para ti, eu também passo a ser única no mundo…
[...] se tu me prenderes a ti, a minha vida fica cheia de Sol. Fico a conhecer uns passos diferentes de todos os outros passos. Os outros passos fazem-me fugir para debaixo da terra. Os teus hão-de chamar-me para fora da toca, como uma música. E depois, olha! Estás a ver, ali adiante, aqueles campos de trigo? Eu não como pão e, por isso, o trigo não me serve para nada. Os campos de trigo não me fazem lembrar nada. E é uma triste coisa! Mas os teus cabelos são da cor do ouro. Então, quando eu estiver presa a ti, vai ser maravilhoso! Como o trigo é dourado, há-de fazer-me lembrar de ti. E hei-de gostar do barulho do vento a bater no trigo…
[…]
Foi assim que o principezinho prendeu a si a raposa. E quando chegou a hora da despedida:
- Ai! – exclamou a raposa – Ai que me vou pôr a chorar…
- A culpa é tua – disse o principezinho. – Eu bem não queria que te acontecesse mal nenhum, mas tu quiseste que eu te prendesse a mim…
- Pois quis – disse a raposa.
- Mas agora vais-te pôr a chorar! – disse o principezinho.
- Pois vou – disse a raposa.
- Então não ganhaste nada com isso!
- Ai isso é que ganhei! – disse a raposa. – Por causa da cor do trigo…
Maria Cristina de Castro-Maia de Sousa Pimentel, in Clássica 21
Publicado por MARIAMAR em abril 28, 2004 09:52 PM:))) Estou a sorrir...O principezinho é um livro que tenho há anos, está amarelo e muito estragado porque de vez enquando pego nele. Preciso de o reler. A passagem que mais gosto é aquela que diz (penso que é isto) "cada um é responsável por aquele que cativa". É uma das melhores frases que define a amizade. E como precisamos de amigos sinceros neste tempo que corre:)Adorei este post:-) Tens uma sensibilidade e um bom gosto incríveis:))) Continua;)
Afixado por: wind em abril 28, 2004 10:44 PMÉ um prazer ver aqui referido Raul Brandão de que tanto gosto. E, o que daí advém. Um excelente texto reflexivo.
Um abraço, Mariamar.
não consegui conter uma lágrima...porque adivinhando os meus pensamentos conseguiste entrar no meu coração...vejo tudo o que sinto aqui, sinto-me triste...mas eu sei que vai passar, obrigada pelo carinho e pela força...do fundo do meu coração. No meio da desilusão ainda consigo usufruir de uma surpresa tão bonita, um beijo e abraço carinhoso
Afixado por: Vera em abril 29, 2004 01:29 AMa viagem com pascoaes, leva-me ao douro, com exupéry só agora levanto voo,
mas hoje ainda, viajo para longe, com a cor deste trigo na memória, e a mágoa da dúvida.
Isto não se faz... Sua marota! Quase me pos a chorar. Um grande grande abraço amiga.
Afixado por: Ardelua em abril 29, 2004 05:18 AMSer responsável pelo que se cativa... Se o que cativamos é a amizade, a tarefa não é árdua, mas o contrário, prazerosa. O amigo por certo sempre nos dá muito prazer, seja porque nos alerta sobre o erro, seja porque nos acompanha em todos os momentos. Se não sentimos esse prazer por ser a dor do momento tanta, com certeza, ao nos lembrarmos dele, por saber que o amigo estava ali, passaremos a senti-lo.
Afixado por: Graças em abril 29, 2004 01:28 PMGosto da simbologia do trigo... lembra-me a deusa da fertilidade que escolhi para meu arquétipo..
Afixado por: Deméter em maio 2, 2004 02:41 AM