A minha solidão
não é uma invenção
para enfeitar noites estreladas…
… Mas este querer arrancar a própria sombra do chão
e ir com ela pelas ruas de mãos dadas.
… Mas este sufocar entre coisas mortas
e pedras de frio
onde nem sequer há portas
para o Calafrio.
… Mas este rir-me de repente
no poço das noites amarelas…
- única chama consciente
com boca nas estrelas.
… Mas este eterno Só-Um
(mesmo quando me queima a pele o teu suor)
- sem carne em comum
com o mundo em redor.
… Mas este haver entre mim e a vida
sempre uma sombra que me impede
de gozar na boca ressequida
o sabor da própria sede.
… Mas este sonho indeciso
de querer salvar o mundo
- e descobrir afinal que não piso
o mesmo chão do pobre e do vagabundo.
… Mas este saber que tudo me repele
no vento vestido de areia…
e até, quando a toco, a própria pele
me parece alheia…
Não. A minha solidão
Não é uma invenção
Para enfeitar o céu estrelado…
… mas este deitar-me de súbito a chorar no chão
e agarrar a terra para sentir um Corpo Vivo a meu lado.
José Gomes Ferreira, Poesia III
Publicado por MARIAMAR em abril 23, 2004 12:08 AMBem verdadeiro e sentido, este Poema.
Obrigado, Adesse.
Um abraço.
Lindo poema. Este deixa-me incapaz de comentar, porque o senti de uma forma muito intensa.
Afixado por: wind em abril 23, 2004 10:26 AMQue poema! Que escolha! Que pena só haver um sulparati... X's
Afixado por: Castro Cola em abril 24, 2004 04:39 PMA solidão sempre me fala de forma profunda e a escolha, na maioria das vezes, supera a autoria... beijos!
Afixado por: Deméter em abril 24, 2004 08:54 PM