Arranca o estatuário uma pedra dessas montanhas, tosca, bruta, dura, informe; e, depois que desbastou o mais grosso, toma o maço e o cinzel na mão, e começa a formar um homem, - primeiro, membro a membro, e depois feição por feição, até à mais miúda; ondeia-lhe os cabelos, alisa-lhe a testa, rasga-lhe os olhos, afila-lhe o nariz, abre-lhe a boca, avulta-lhe as faces, torneia-lhe o pescoço, estende-lhe os braços, espalma-lhe as mãos, divide-lhe os dedos, lança-lhe os vestidos; aqui desprega, ali arruga, acolá recama; e fica um homem perfeito, e talvez um santo que se pode pôr no altar.
Padre António Vieira, Sermão do Espírito Santo
Publicado por MARIAMAR em abril 20, 2004 01:28 AMAssim é. Muito bonita a descrição. Mas só se aplica para o belo, o etéreo. Este texto não é terreno, material, de certeza.
Gostei muito da visita.
há quanto tempo...c.
Afixado por: psm em abril 20, 2004 07:38 AMLinda descrição de como se faz uma estátua. Algo que parece tão banal está escrito de uma forma poética;)
Afixado por: wind em abril 20, 2004 09:39 AMNão é propriamente à descrição de uma estátua que o Pe. Antonio Vieira se referia, e sim à educação-aculturação dos índios pelos jesuítas. Nesse sermão ele tenta mostrar que é possível transformar os rudes indígenas, através da educacão e religião, em verdadeiros homens. Idéia absurda por sinal, pois o fato de serem não-cristãos iletrados não os torna menos homens.
Afixado por: Ingrid em setembro 12, 2004 03:15 AM