O caderno onde escrevo trouxe-mo a minha filha
de viagem. Tem «O Grito» de Munch sobre o corpo.
Sinuoso e disforme, auto-retrato raso, a boca em
verde, as mãos acompanhando a curva da cabeça,
e o resto em disjunção — como esse céu. As cores
serão de pouco mais de século, foram nórdicos dedos
a compô-las. Mas há nessas figuras ao fundo de uma
estrada, de uma ponte (divisão de harmonia e des-
conforto, de um azul escuro a encostar-se ao negro),
uma implosão comum. É uma ponte, tem que ser
uma ponte o que se vê, e o caos que se desenha
nesse rosto não deve estar atrás, mas no que está à
frente, no caminho. Qualquer futuro, invisível daqui.
E há os pequenos barcos, perigosamente em centro
indefinível. Redemoinho? Sol? Seja o que for, reflecte,
parcialmente, um amarelo quente, ameaça de um astro
que se põe. Ou de um meio-dia atravessado a ventos
ondulantes. Podia-se (inviamente) inverter o caderno,
ver em diagonal. Mas seria uma imagem semelhante
à do caderno inteiro. Mesmo que do avesso, havia de
falar a mesma dor. Curvo e sinusoidal, o mesmo espaço.
Só a cerca castanha, precipitada no abismo verde,
é breve protecção.
Ela, e a mão que, de viagem, me trouxe este caderno.
Um pouco ainda, também, as suas folhas, que, por
enquanto (e quase todas), brancas, lhe são um forro
quase mudo. Quase —
Ana Luísa Amaral
A Ana Luísa Amaral, ab imo corde.
E há aquele "Grito" de Amália, que foi tocado,a seu pedido, no fim da missa de corpo presente...Um grito lancinante...
Afixado por: valeria em abril 16, 2004 01:16 AMainda bem que atendeu ao pedido que deixei no outro 'sul'! Não conhecia este poema de Ana Luísa Amaral. Agradeço-lhe tê-lo trazido até mim. Grande abraço e... continue! É um prazer sempre renovado visitar os 'Sul'. Grande abraço. P.
Afixado por: Pedro Roriz em abril 16, 2004 08:57 AMque saltito agradável o que te despejou na minha paginazinha! agora não precisa mais entrar saltando. é só dar a mão.
Afixado por: sérgio em abril 16, 2004 04:19 PMGostei:)
Afixado por: wind em abril 16, 2004 06:59 PMestive ausente, mas não alheado - fui desviado, mas não perdi o sul (há quem diga, perder o norte) - de saudades somos feitos – mato no momento algumas. c.
Afixado por: c em abril 16, 2004 08:28 PM