«Sabes, tenho estado a pensar numa coisa estranha: quando nos apaixonamos por alguém, esse apaixonarmo-nos diz concretamente respeito a quem? Não é à pessoa propriamente dita, não pode ser, porque ao princípio não a conhecemos: só vemos nela o que projectamos: uma estátua grega, um verso de Camões, as Glosas do Caballero de Cabezón...
[...]
não me parece que a palavra "sentimento» seja susceptível de integrar uma expressão pleonástica. Pleonasmo implica redundância, não é? Acho que no amor nunca há o perigo de redundância; ou melhor: pode-se ser redundante à vontade no sentido em que chover no molhado é já de si uma componente própria do estado de estarmos apaixonados; é monocórdico amar-se alguém, deliciosamente monocórdico... tomáramos que a pessoa amada fosse duas vezes ela própria!»
Frederico Lourenço, pode um desejo imenso