fevereiro 23, 2004

«talvez nunca»

«A tensão entre ambos, desde o início. Porque eles eram dois mundos sem pontos de contacto. A consciência disso, desde o primeiro instante. As tardes em que ela vagueava ao longo do rio, solta, dispersa, confundida com as coisas, as árvores, o rio, os barcos, os movimentos da água, o ondular do vento, uma figura indefinida caminhando através da luz baça. E do outro lado da ponte a janela iluminada, a pequena casa para onde ele se mudara, dissera-lhe, e esperava por ela, detrás das janelas altas. Entrar na casa e tomar a forma da casa, reunir na bruma os pedaços do seu corpo e ser breve e mortal entre dois braços, partir correndo, subir até ao último andar, abrir a porta e entrar de repente em sua vida, levando atrás de si o rio, a noite, o vento, a água, a bruma, o obscuro milagre que no universo dele não existia - mas Afonso não punha nunca o seu próprio universo em causa, e não viria nunca ao seu encontro. Ele não aceitava risco algum. Porquê então o absurdo impulso de atravessar a ponte quando não haveria talvez nunca uma ponte possível,»

Teolinda Gersão, O Silêncio, pág. 34, Publicações Dom Quixote

Publicado por MARIAMAR em fevereiro 23, 2004 09:59 PM
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